sábado, 18 de março de 2017

Delírio: uma biblioteca

Naquele tempo uma fuga de matéria suprimia o enfarte. Na estante Voltaire contemplava a ardósia estampada ao longo da parede. O giz escorria em nuvens de pó vitalícias. Era difícil perceber o nó que apertava o ar.
Todo aquele ruído fazia-o corar meticulosamente enquanto estudava os insectos que controlavam as ventoinhas oxigenantes. Da estante Nietzsche exigia ser lido. E ele, rarefeito, puxava o livro com mãos sísmicas, tremeluzentes na escuridão da biblioteca.
De folhas em punho deitou-se sobre a poltrona. A temperatura delimitada rugiu um pouco de delírio sobre as cortinas empoadas. Para seu espanto não suportou com o peso das letras.
A estante agora fremia sobre o seu suor catedrático. Os candelabros oscilavam fumegantes. Já sem fôlego sucumbiu esgotado pelos gritos da ordem alfabética.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A batalha quase naval

Olhou para os trópicos e viu que rugia uma extensa ondulação prateada. Soberbos, os micro-climas duplos faziam história nos canais abertos. Ao aproximar-se, rasgou em fúria as cartas estacionais. Não era um terremoto que o afligia.
O reter das águas espigaram quando a barcaça virou, recta, rainha do espaço verde-azul-prata. Os canhões dispararam rompendo as fragatas dentadas. Num serialismo obsceno as viúvas choraram na praia.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

A rústica parede em relevo

Subíamos degraus às escondidas só para ver o que havia do outro lado. Sublinhavam-se Martes no horizonte de pedra. Nós, de fio ao peito e cabeça erguida, pulávamos o muro da compreensão. Lá por trás havia uma mancha que arranhava os céus em padrão oblíquo.
Sistematicamente percorríamos o corredor de portas, imensas portas em fila no limiar do bosque. A beleza das fontes enaltecia o emblemático calor que emanava daquela estrutura. As estranhas configurações herbais de arquitectura polifónica cobriam a última porta. Ao ser escancarada a revelação era eminente. Desvendava solene, em ritmos circadianos, aquela magnífica virtualização compacta. Do núcleo surgia, em ilustração, a rústica parede em relevo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O bloco de memória de um teatro

De manhã convinha mudar as águas turvas daquele bloco de memória. Lembrava-me de um teatro. De uma dicção própria que vagueava entre as muralhas da peça.
Neste bloco de memória o teatro partia de país em país. Eu era um capitão de mares revoltos, transportado por carroças equiparadas a asnos brilhantes. Eu era um palhaço triste embebido em miséria. Eu era uma partitura triplicada de sinfonias coagulantes. Eu era todo um território de personagens dizimadas pelo fim de cada acto.
A cortina rasgada fechava o ciclo. Apenas o bloco restava.

Os conta-chaminés

Todas as manhãs contávamos chaminés. Percorríamos extensos territórios molhados, repletos de pequenos oceanos aos quais chamávamos poças. Na lama reflectiam-se os espasmos industriais de fábricas em dilaceração ambiental. E nós, pequenas térmitas humanas, calculávamos em alta voz as tonalidades tóxicas das máscaras de gás.
Ao fim da tarde, cansados de brincar aos conta-chaminés, tecíamos sonhos das cascatas de pó que, como neve de laboratório, cobriam pixeis de realidade.
Depois vinham as noites outrora iluminadas. A cada uma que passava trazíamos nas contas uma chaminé a menos. Até que um dia só havia uma chaminé. A chaminé do vagão para a nossa morte.

sábado, 28 de janeiro de 2017

O cume de uma estratosfera

Caminhávamos ao som do aspirador. As bermas alternativas da estrada intrometiam-se na visibilidade, como pregos que invadem ranhuras, como estrelas que empurram o espaço.
Tínhamos os pés num crivo e as solas dos sapatos igualavam-se a um mapa astral.
A léguas, quilómetros, qualquer medida que vos ocorra de distância, o cume de uma estratosfera balançava num flutuante rochedo. Era nesse espaço, nesse ponto único que amansava todo o planeta, que o nosso destino residia.
Os pássaros abandonavam o ninho. O som do aspirador permanecia.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Texto para uma forma esférica



A forma sem rosto espalha-se ao longo da folha de linhas. Parece que dança. Não faz movimento absolutamente nenhum, excepto quando a própria folha se mexe.
As sombras caem sobre ela. Delicadas, projectadas a partir dos cantos mais longínquos das dobras, transmitem a simplicidade que a torna quase um monumento de pedra. Mas é apenas papel.