quinta-feira, 23 de abril de 2015

Obscuro II

No silêncio do quarto retenho-me pensativo. Porque neste momento pouco mais do que os meus pensamentos me conforta. Com o passar dos anos, a vida tornou-se um tanto óbvia para mim. E cada vez mais sinto a necessidade de ficar na minha própria esfera, afastado, por momentos, da companhia dos outros.

Lentamente abandono a ideia de ter de partilhar obrigatoriamente as minhas coisas com o mundo. Sinto-me cada vez mais um criador obscuro. Tenho gosto nisso. Liberta-me criar as minhas obras sem a obrigação de ter um público ou apreciadores particulares. No entanto não as nego a quem as quiser apreciar.

Talvez pensem que sou louco quando digo que o sucesso não me interessa. Pensem o que quiserem. Já pouco me importa. Houve tempos em que ansiava por sucesso, mas isso foi há muitos anos e já não tem importância. Com o passar do tempo essa ideia de ser bem sucedido foi perdendo a relevância. Porém, se acidentalmente ficar famoso é porque o mundo assim o quis e não por vontade minha. Não sou contra a exposição pública das criações artísticas e não ponho de lado a hipótese de, de vez em quando, aparecer em público. Simplesmente isso deixou de ser uma parte importante da minha vida enquanto criador.

Sou um amante das coisas pequenas. Das coisas simples. Das publicações caseiras. Das pequenas edições. Das coisas artesanais. Enfim, da arte sem compromisso. Sou um amante da arte pela arte. Por isso evito as massas e evito atrair as atenções. Porque na realidade é isso que muitos artistas querem: dar nas vistas. "Eu sou isto; Eu sou aquilo", regem-se por títulos e vaidades e esquecem-se da arte. E ao esquecerem-se da arte enchem o mundo de trabalhos insípidos e superficiais que pouco me atraem. Ainda mal surgiram e já são músicos, já são pintores, já são autores, já são isto, já são aquilo. E é precisamente dessa fantochada que envenena a arte, e a torna um mero produto de consumo em massa, que eu quero escapar.

Ser um criador obscuro não significa de modo algum fechar as portas ao mundo. As portas estão sempre abertas. Eu é que simplesmente não estou visível. E se tiver de aparecer que seja de forma natural. Não me obriguem ao foco de luz das atenções. Deixem-me estar sossegado. 

Nota: Neste artigo englobo em "arte" todas as vertentes artísticas tais como a música, a literatura, a poesia, o teatro, a pintura, a escultura, etc.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Obscuro.

Estou-me a marimbar para o sucesso. Se crio alguma coisa é porque tenho um impulso criativo que assim me obriga. Crio para mim sem a intenção imediata de chegar a um público (apesar de algumas obras chegarem ao público naturalmente). Crio porque gosto, porque me sinto bem com isso e não espero dinheiro algum pelo que faço.
Não sou poeta, não sou artista, não sou músico, não me chamem nada disso. Não gosto de títulos e não tenho nada a explicar sobre as minhas criações.
Também não tenho nada a dizer sobre este manifesto.
Espero que compreendam.

domingo, 12 de abril de 2015

A morte não é nada.

Silêncio de velório. Enquanto corto o tecido, e lhe dou cola para não desfiar as pontas, o diálogo suspende-se, indeterminadamente, quebrando a vida das palavras que animam o atelier de costura. Até o choro das carpideiras, que só existem hoje em dia no imaginário do povo, seria suficiente para alegrar as horas que passam. E já que o ambiente remonta a funerais, conto-vos que carreguei muitos caixões ao longo da vida.
Primeiro vai um. Depois vai outro. E pouco a pouco os entes queridos vão partindo. Até que um dia ficamos sós. Ficamos só nós num mundo descabido e sem graça.
Rosto a rosto, corpo a corpo, as tampas fecham-se. Flores e lágrimas. Depois a vida prossegue como se nada fosse. E no fundo a morte não é nada. Para muitos ao fim de poucos anos já os caixões carregados são só uma memória longínqua.
Na realidade a morte só tem impacto porque estamos vivos. E se estamos vivos nada mais resta senão esquecê-la e viver o tempo que ainda temos pela frente.
Neste silêncio de velório o trabalho prossegue. E nisto são horas de tomar café.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Reflexões para um Domingo de Páscoa.

Quatro e trinta e oito da madrugada. O chá ferve na chávena. A altas horas da noite desfaço torradas com a fileira de dentes que habitam a minha boca.
E é nestas horas de angustiante solidão e desesperante silêncio que, intercalando com as merendas nocturnas, penso nos climas de insatisfação que me proporciona a cidade quando nela é Domingo.
Aos Domingos batem as amarguras como batem as horas no sino da igreja. As ruas desertas e as lojas encerradas amplificam esse sentimento de desolação que meu coração acolhe.
Recordo-me de quem há muito abandonou o mundo físico. Penso no amor que migrou para outras geografias. Visualizo mentalmente o caminho mal planeado que tomou a minha estranha existência. E imagino um futuro de inquietações.
Deambula uma borboleta na sala. Deambulo eu na mais profunda tristeza. A borboleta voa, mas eu que não tenho asas caminho vagabundo na penumbra de Domingo. Foi Domingo. E não há Domingo nenhum em que não pense na morte. 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Abstenho-me!

Certo dia estava numa assembleia e deparei-me com um pensamento que ainda me deixa perplexo: Numa situação de votos como é que nos podemos abster até da própria abstenção?